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    Portal de Arte Moderna – Curadora de Arte Luisa Duarte

    Por Damiana Carvalho/Arte Hall São Paulo

    Confira a entrevista exclusiva que a curadora independente Luisa Duarte deu à Arte Hall

    Luisa Duarte, foto de Liu Lage.

    Luisa Duarte, foto de Liu Lage.

    Luisa Duarte é curadora independente e mestre em filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Crítica de arte do jornal O Globo e membro do conselho consultivo do Museu de Arte Moderna de São Paulo. Organizou, com Adriano Pedrosa, o livro ABC – Arte Brasileira Contemporânea, publicado pela editora Cosac Naify em 2014. É curadora da exposição Roesler Hotel #25 — Dispositivos para um mundo (im)possível, recentemente inaugurada.

    AH- Luisa, conte-nos um pouco da sua história.

    Eu cresci cercada por arte e artistas. Mas isso não foi o suficiente para que acendesse em mim algo que me levasse para crítica ou curadoria. Por meu pai, Paulo Sergio Duarte, ser um crítico relevante, cresci ao lado do Tunga, do Antonio Dias, do Waltercio Caldas, da Iole de Freitas, do Zé Resende, da Jac Leirner, etc.

    AH- Quando você decidiu se tornar uma crítica de arte?

    O ponto decisivo do meu processo foi o encontro com artistas da minha geração, pois as obras deles foram as responsáveis pela constituição da percepção a partir da qual comecei a elaborar minhas questões e meus interesses. E assim criar, quem sabe, uma voz singular no terreno crítico.

    AH- Você poderia citar alguma obra ou artista que fez parte desta decisão?

    Uma dessas obras significativas é um vídeo da Sara Ramo chamado Oceano possível. Vi essa obra pela primeira vez no Panorama da Arte Brasileira de 2003, eu tinha 23, 24 anos nessa época, e o trabalho me conectou de forma potente e poética com questões do meu mundo e do meu tempo, do nosso mundo, da nossa experiência, tocando na questão da falência das utopias que pode nos levar à desistência, mas sem sucumbir e deixando entrever uma esfera de sonho. Em “Oceano Possível” está posto que não teríamos hoje o mesmo horizonte de expectativas de outrora, tampouco “um oceano inteiro para nadar”, citando Leonilson, mas que sim, existe um campo de possibilidades em que podemos atuar e instaurar mudanças; não precisamos nos render à paralisia, tampouco ao cinismo ou à sensação de impotência que nos acomete tantas vezes nos dias de hoje. Surgia diante de mim uma espécie de niilismo ativo.

    AH-  E algum curador ou crítico experiente contribuiu no início?

    Outro ponto fundamental desse processo é o encontro com Lisette Lagnado. Era ela quem lia os meus primeiros textos. Nessa época tínhamos mais tempo… Ela lia meus textos e me dava um feedback muito precioso, um privilégio. Ela atuava como uma editora dedicada, me ensinando, estimulando, e criticando. Em termos de escrita, de ritmo, de precisão, de síntese. De alguma forma ela acreditou no que eu fazia e quis que eu fosse em frente, e era disso que eu precisava pois se tratava de uma pessoa que eu admirava, de uma geração anterior à minha, com quem eu tinha afinidades. Alguém que havia estudado Mira Schendel, Iberê Camargo, Hélio Oiticica, Leonilson, e que sempre esteve em contato, simultaneamente, com a minha geração. Ou seja, trata-se de um olhar que prova que é possível sermos rigorosos sem sermos dogmáticos. Por isso tudo até hoje ela cumpre um papel muito importante na minha vida intelectual.

    AH – E como é a sua rotina?

    O meu dia a dia é corrido. Tenho um mestrado em filosofia, mas somente com um doutorado penso em, quem sabe, vir a dar aula de forma mais constante. Assim, a vida de crítica e curadora independente é uma engrenagem com dezenas de gavetas para serem abertas simultaneamente. Escrevo essa entrevista num hotel em Madrid. Onde vim visitar uma feira de arte como convidada, onde antes já vim trabalhar. É ótimo, sem dúvida. Mas não há glamour nessa dinâmica de viajar, etc. Há, sim, uma troca rica com gente do mundo todo e a chance de ver mais trabalhos de arte vindos de outros cantos.

    AH – E como organizar tantas atividades?

    Trata-se de uma vida que necessita conciliar o tempo para a reflexão, a escrita, e a agilidade do fazer e do ver em diversos lugares. Podemos ocupar a tarefa de sermos intelectuais de nosso tempo. Pensadores que nem estão na academia, tão apartados do mundo “real”, nem estão somente no ambiente da ação, sem a necessidade ou o vínculo com um pensamento mais vertical. Crer que esta união é a nossa meta, a minha, é um estímulo para continuar como crítica e curadora a cada dia.

    AH – Você acredita que o espaço para a crítica de arte diminuiu?

    Sim, o espaço para a crítica diminuiu. Mas não só no Brasil, e sim no mundo. O valor cultural e econômico da arte é fruto de um circuito que inclui diversos agentes do sistema da arte – galerias, colecionadores, feiras, jornalistas, público, curadores, crítica, editores, instituições, museus. O papel da crítica é se posicionar, apostar, ter dúvidas, resistir a certos interesses quando preciso. Rever o consenso e contribuir para uma história da arte que nem sempre coincide com aquela desenhada pelo mercado. O Brasil carece de coleções públicas de peso e de um espaço efetivo de crítica.

    AH – E qual o espaço atual para a crítica de arte?

    Acho que o papel da crítica de arte hoje está não só no espaço que ocupamos numa publicação, mas sobretudo num posicionamento mais global em relação a tudo que nos cerca, escola, jornal, revista, mercado, museu, feira, etc… Claro que um texto sempre será um texto. Mas me parece que para termos mais textos críticos influentes precisamos antes, hoje, sermos mais ativos criticamente como um todo no mundo. Ou seja, lembrarmos que somos seres políticos diariamente.

    AH – Como acontece a sua produção crítica?

    A crítica é um processo lento, de construção que acontece ao longo do tempo. Para isso precisamos, justamente, de tempo. O que é mais raro hoje. Eu exercito a crítica como tradução, interpretação, mas com um sentido de urgência, de necessidade. O que significa isso? Significa tentar doar para aquela escrita, a partir da obra, um vínculo com o presente, com a nossa vida diária. Assim, de crítica em crítica, quem sabe, escrevemos a narrativa de uma época.. Isso não apaga a dimensão atemporal de obras e por sua vez, de críticas. É que mesmo quando escrevemos sobre trabalhos aparentemente extemporâneos, uma sinalização para o nosso tempo é possível.

    AH – Para você, de que maneira o trabalho crítico e de curadoria se relacionam?

    Para mim crítica e curadoria são relações dependentes. Na crítica ocorre a análise mais demorada, mais aprofundada de um determinado trabalho, ou de um campo de obras de alguns artistas. Tal pesquisa/escrita nos deixa  de maneira mais segura sobre certos caminhos, certas intercessões. Que podem, aí, deflagrar uma curadoria. E nesse ponto a escrita é fundamental, pois há sim, ali, um tempo mais lento, específico, maturado. Uma demora mesmo, que gera angustia, mas também prazer. O crítico é um tradutor, e o curador também. Só que a tradução do curador possui um território mais expandido. Mas creio que só existe a tradução do curador, que faz um texto no espaço, com diversas obras reunidas, porque antes houve um pensamento vertical de natureza crítica. E claro que a montagem final de uma mostra pode levar um curador a rever, criticamente, certos preceitos sobre aquilo que ele mesmo realizou. Voltando assim quem sabe ao texto, mas de outro ponto de vista.

    AH – Então, como você explicaria a atividade curatorial?

    Eu diria que trabalho com “levantamento de sintomas”. Este termo cunhado por Ivo Mesquita em uma entrevista para a edição número sete da Revista Número me parece muito feliz para sinalizar a tarefa da curadoria.

    AH – Sabemos que o mercado de arte está em crescimento ao redor do mundo, existem muitas pessoas iniciando coleções e se interessando pela área.  Você acredita que o debate crítico se relaciona diretamente na valorização, ou desvalorização, de determinado artista?

    Sim, o colecionismo está em expansão. A profissão de “art advisor” talvez substitua a de curador em “importância” ao longo dos anos futuros.

    Mas hoje ainda é uma junção de curadoria, critica e mercado que dá valor a um artista. Vemos casos de artistas que se “vendem” de qualquer forma para o mercado e são expurgados do “mercado da arte” ou ao menos da engrenagem que faz girar o circuito da arte em geral. Isso porque ainda existe uma “aura” de que sim, estamos lidando com um pensamento, uma criação singulares, e a proliferação disso de maneira pop de fato nunca ocorreu. A ideia disso sim. As garrafas de Cildo Meireles apontavam para essa expansão. Mas ele, Cildo, estava anônimo…Justo no momento mais pop de sua obra.

    É nosso papel, desde dentro, recordar o aspecto de resistência contido na arte diante do mundo tal como se encontra; um mundo no qual como diz o filósofo Giorgio Agamben, “Deus não morreu. Ele tornou-se dinheiro”.

    AH – E qual é o seu projeto futuro?

    Ao invés de usar o “eu” talvez valha mais a pena pensar o que seria um projeto para nós hoje. Certamente um universo de trabalho menos apartado, mais solidário. Um espaço no qual pensamento e “ação” sejam mais coincidentes. Se temos a Suely Rolnik, a Lisette Lagnado, o Peter Pal Pelbart, o Francisco Bosco, a Maria Rita Khel, a Adriana Varejão, a Lia Rodrigues, e tantos outros, por que não trazer todos para mais perto?

    Quem faz arte ou pensa sobre ela está no mesmo barco. Quem pensa sobre o mundo em que vivemos e busca transfigurá-lo, está no mesmo barco. Vamos nos aproximar. Sejamos salva vidas solidários, e não náufragos solitários.

    Esse seria um projeto. Não o “meu” projeto.