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    AgendaO Museu de Arte Contemporânea da USP, em parceria com o IMS, abre nova exposição.

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    Emancipação, inclusão e exclusão

    O Museu de Arte Contemporânea da USP, em parceria com o IMS, abre no dia 28 de outubro a exposição Emancipação, inclusão e exclusão. Desafios do Passado e do Presente – fotografias do acervo Instituto Moreira Salles, com  fotografias de Marc Ferrez, Victor Frond e George Leuzinger, entre outros. A curadoria é de Lilia Moritz Schwarcz (Antropologia USP), Maria Helena P.T. Machado (História USP) e Sergio Burgi (coordenador de Fotografia do IMS).
    A mostra com 74 imagens, inclusive originais de época, analisa o registro fotográfico feito sobre negros – livres, escravizados ou libertos – no Brasil, em um período em que vários fotógrafos estrangeiros atuavam no país com trabalhos de forte elaboração estética e formal. Os trópicos, a natureza e seus habitantes foram registrados em câmeras de grande formato sobre tripés, que aproximam o resultado da imagem fotográfica do período aos padrões da pintura de cavalete. Como na representação da natureza – com suas grandes cascatas, florestas virgens, mar profundo e paisagens – a representação dos nativos era quase idealizada, adquirindo um caráter icônico e onírico.
    A fotografia de escravos e ex-escravos no Brasil tem uma particularidade: de um lado, a fotografia entrou cedo no país contando, já nos finais dos anos 1860, com clientela certa, que dentre outros incluía o imperador d. Pedro II; ele próprio um fotógrafo. De outro lado, a escravidão tardou demais a acabar, guardando o Brasil a triste marca de ser o último país do Ocidente a admitir tal tipo de sistema. Dessa confluência resultou um registro amplo e variado desse sistema de trabalho e de seus trabalhadores. Por vezes tomados ao acaso, por vezes figurando como modelos exóticos ou tipos para a análise da ciência; ora como parte do cenário, ora como figuras principais, escravizados foram flagradas nas mais diversas situações.
    Mas se a operação de converter os indígenas em “objeto de estúdio” fazia parte dos cânones românticos de época, mais difícil era captar o dia a dia da escravidão e do trabalho forçado. Grande contradição do Império brasileiro, o sistema escravista foi abordado por diversos fotógrafos, autônomos ou apoiados pela Coroa. Particularmente nos anos 1870 e 1880 proliferaram as fotos de escravizados, revelando, por sua regularidade, de que maneira o sistema andava naturalizado entre nós e disperso por todo país. Negros figurariam em cartes de visites, mas também nos documentos científicos. Estariam também presentes nas fotografias de paisagem e na documentação do trabalho nas fazendas de café realizadas tanto por Victor Frond nos anos de 1859 e 1860, como por George Leuzinger por volta de 1860, e Marc Ferrez na década de 1880.  Em todos esses casos vemos a montagem da representação naturalizada da escravidão: tudo em seu lugar.
    Nas cidades, os fotógrafos do século XIX encontraram  os motivos e características de uma escravidão urbana, caracterizada pelos trabalhos de rua, com a presença de figuras urbanas marcantes como as de  carregadores, vendeiras e barbeiros  –  libertos ou cativos. Mais uma vez, a forma precisa e estetizada se fazia presente nos cestos bem montados, nas vendeiras dispostas de maneira equilibrada e com panos das costas detalhadamente expostos, nos carregadores de liteiras bem postados. Aí estava novamente o espetáculo de uma escravidão pacífica e sem contestação. No entanto, essas fotos urbanas denunciam igualmente precariedade, indisciplina e certa ausência de controle do trabalho escravo nas cidades.
    É como se os fotógrafos, em boa parte estrangeiros e a par das críticas ao sistema escravista, buscassem com estas imagens fazer eco às ideias que circulavam, neste momento, nos círculos letrados e humanistas, a respeito da urgência do país superar a escravidão.  Entretanto, é a partir de uma atenção aos detalhes que os negativos fotográficos registraram, que podemos vislumbrar muitos momentos e ângulos de autonomia e de vontade própria por parte dos fotografados, possibilitando uma leitura a contrapelo ao sentido geral das imagens.  O fato é que a possibilidade atual de ampliar os negativos permitiu que trouxéssemos à tona o registro de detalhes de primeiro e de segundo planos. Hoje, com as novas técnicas é possível buscar ângulos recônditos das fotografias, muitas vezes desconhecidos pelo próprio artista que registrou a cena. Embora o fotógrafo do XIX não pudesse revelar suas fotos em proporção mais ampliada, o negativo que ele nos legou permite, e é esse o convite que fazemos nessa exposição. A partir de recortes das imagens, vemos gestos e olhares que conferem singularidade aos indivíduos fotografados, fossem eles escravizados, libertandos ou libertos.
    Emancipação, inclusão e exclusão. Desafios do Passado e do Presente faz parte de um projeto maior realizado em outubro de 2013 na Universidade de São Paulo, no escopo das atividades que comporão o seminário “Emancipações, Inclusão e Exclusão. Desafios do Passado e do Presente”, e pretende contribuir para o tema geral do seminário a partir das imagens fotográficas que registram a escravidão e seus desdobramentos no país.